quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Campos idílicos

Não podendo ser diferente, essa postagem foi embalada por uma música que me lembra inevitavelmente o (antigo?) interior do nosso país.
Romaria, interpretado por Elis.


Ontem estava ainda na minha rua, quando vejo um homem vindo com uma muleta mancando, em minha direção. Já estava de noite, era cerca de 9:30 e por viver na cidade que vivo, mantive uma (relativa) distância segura do homem que mancando rápido com sua muleta conseguiu atravessar a tempo de meus passos propositadamente rápidos não passassem-no.
Quando a luz me permitiu ver o sujeito, vi um homem negro, com aparência cansada.
Ele – talvez por ter feito um esforço de andar rápido mancando com sua muleta – apoiou-se num pitoco e pediu pra conversar comigo. Um tanto quanto impaciente e já sem temê-lo, parei e escutei.
Ele apresentou-se, não recordo o nome, mas se não me engano o sobrenome era Barbosa da Silva. Pareceu-me orgulhoso de dizer seu nome todo, falava de forma cansada, sofrida, com um sotaque tipicamente do interior. Disse que eu era um rapaz novo, e que ele já era um homem velho, que não queria me assaltar e nem pedir dinheiro. Ele apesar das roupas velhas, mas inteiras, tinha uma coisa que muitos vestidos de black-tie não têm hoje em dia: dignidade.
Esse foi o primeiro ponto que me chamou atenção, e já ficando com remorso de ter tido um tom impaciente quando pediu-me um minuto, passei a ouvi-lo e não somente escuta-lo.
Disse-me então que era de Minas e disse o nome de uma cidadezinha, que veio ao Rio em busca de trabalho, em busca de pão para sua família, mas que ao em vez de trabalho ele viu foi muitas oportunidades de fazer coisas erradas, coisas que ele um simples homem do interior nunca tinha feito, coisas da cidade grande..
Tinha uma mulher em casa e um filho “já graúno”, complementando logo em seguida que “graúno não é coisa errada não senhô, graúno é menino grande lá no interior”.
Disse isso em meio a um sorriso amarelado, extremamente paternal, seus olhos ao falar do filho se encheram de um brilho, de um orgulho que realmente me comoveu. Disse que além da esposa e do filho tinha uma menina muito doente, que além de ter câncer era excepcional e que como tinha sido atropelado não podia mais trabalhar - mostrando sua perna como prova do acidente. Naquele dia ele iria sair às 11:40 da noite com sua família para a Central do Brasil para pegar um ônibus à meia-noite e retornar à sua cidade natal. Disse que conseguiu o dinheiro que fora juntado nos seis meses que ficou aqui com seu trabalho, e tudo que me pedia era comprar alguma coisa para dar de merenda para suas crianças que estavam com fome.
Vislumbrei dentro da sacola que levava à tira-colo algumas coisas. Ele apressou-se em dizer que aquilo ali “não era coisa errada, não senhô”, que era uns pães e uma garrafinha que uma “dona do prédio ao lado” dera a ele para levar para seus filhos, mostrando o pão e a garrafinha para mim...

Infelizmente (isso me deu um enorme aperto na hora) minha carteira estava com os amigos que ia encontrar, e não tinha um tostão sequer para dar ao pobre homem. Desculpei-me envergonhado, desejei boa sorte e boa viagem e segui meu caminho. Não pensando “graças a Deus, me livrei”, mas sim pesaroso de não poder ajudar aquele pai de família, abalado ao pensar quantos Barbosas da Silva não passavam por situação semelhante. Quantos não vinham às cidades grandes em busca de pão e trabalho e só encontraram oportunidades para se corromperem...
E vi que apesar da pobreza, apesar da dificuldade, a dignidade daquele homem, a nobreza e a honestidade dele eram íntegras.
Esse é o verdadeiro povo do nosso país. Esses são os verdadeiros brasileiros. Em sua maioria pobres, que nunca conheceram os luxos que a vida pode proporcionar a pouquíssimos.
Um povo trabalhador, um povo do campo, rural, que infelizmente hoje vai se perdendo no Brasil industrializado e urbano que emerge.
Com esse povo, com essa gente, parte do nosso país fica pra trás. Parte daquele Brasil sertanejo, sofrido e feliz fica nos livros e na história. E infelizmente na história os Barbosas da Silva da vida não aparecem. Não aparecem aqueles que eram a cara do nosso país, que deram o sangue e a vida trabalhando no nosso solo, com fome nas grandes plantações que por muitas vezes trabalharam, relegados à própria sorte em um Brasil que nem os brasileiros conhecem mais.
Perdemos pouco a pouco nossa identidade, nossas raízes. E esquecemos que só olhando o passado podemos ter um futuro concreto. Ainda que seja um futuro de concreto-armado, se esquece muitas vezes que os avôs dos mesmos grandes empresários e tecnocratas que hoje negam ver os famintos, olhavam pelo menos para essa gente de maneira diferente, uma vez que o campo era a sua vida e o povo era inevitavelmente o campo. O campo que aravam e semeavam com suas esperanças, suas mãos e sua dignidade.