quinta-feira, 7 de maio de 2009

Rio Branco Arrondissement (parte I)

Outubro. As eleições municipais acabaram de ocorrer e a acirradissima disputa para a prefeitura do Rio de Janeiro foi marcada pelas irregularidades que o prefeito recém eleito cometera para alcançar o Palácio da Cidade.
Passando pelo belo Aterro do Flamengo, pensava que Burle Marx certamente não projetou aquela obra-prima verde matando aulas e provas exatamente como ele estava fazendo.
A manifestação iria até a sede do Supremo Tribunal Regional pedir a impugnação da candidatura do prefeito eleito, isso se tivessem mais pessoas do que aquela meia dúzia de gatos-pingados, que já estavam em frente a Câmara dos Vereadores na hora que chegara.
Naquele azul de arrebentar as retinas e aquele ar de artes inspirado pela imponente arquitetura da Cinelândia, pensava que finalmente a primavera trazia um pouco mais de consciência política à juventude carioca. Isso se eles chegassem!
Ao pintar os cartazes com os dizeres de ordem, começava a sentir borboletas no estomago, cogitando se não teria mais valido a pena fazer a porra da prova ao em vez de participar de uma manifestação a lá “incrível exercito de Brancaleone”...


Mas as borboletas no estomago não deixaram de sair quando viu emergir das escadarias subterrâneas da estação de metrô, centenas de jovens, um mar alegre onde apitos, cornetas e tambores soavam contrastando com as roupas pretas que denotavam o luto pelo Rio.
Todos se aglomeravam nas escadarias do Palácio Pedro Ernesto, o quadrilátero que compreendia o Palácio, o Municipal, a Biblioteca Nacional e o Monumento, era pequeno para tantas pessoas.
Cantou-se o Hino Nacional à voz de pelo menos 5 mil pessoas. A emoção era indescritível, como em uníssono de esperança. Inesperadamente estava ele com seus amigos e outras pessoas até então desconhecidas a frente de toda aquela imensa turba, a faixa estampada “democracia” era segurada ao centro por ele, e no seu lado uma ruiva que antes o pintara com as cores da pátria.

Não conhecia a ruiva que estava ao seu lado, nem o cara que estava no outro e muito menos 4.990 pessoas dali – certamente. Mas ao caminhar com eles, ao gritar com eles, ao dar o passo a todas aquelas pessoas, surgiu algo muito maior.
Uma cumplicidade e um sentimento fraterno enorme. Vozes embargadas, olhos cheios de lágrimas... Isso era algo que nunca sairia da cabeça daquelas pessoas.

Rio Branco Arrondissement (parte II)

Por estar na frente, fora fotografado pelos fotógrafos. Talvez pelo chapéu de bobo da corte que suas irmãs deram-no após uma viagem à Praga, talvez pela ruiva que levava com o braço insistentemente erguido a bandeira do Brasil – numa dúvida em que segurar, a faixa ou a bandeira.
Pessoas paravam de trabalhar em seus escritórios no Centro da Cidade e iam para as janelas. Era olhar para cima e ver os vertiginosos arranha-céus com suas mil janelas, com mil cabeças curiosas, que ovacionavam jogando papel picado, num espetáculo de vozes, cores e força que mostrou uma juventude muito menos alienada do que se falava.

Fez-se um minuto de silêncio em frente ao STR, fez-se gritar, fez-se ouvir a voz de jovens que não queriam mais aquilo para a sua cidade. E tudo isso deu repercussão, mas caiu por terra. Uma vez galgado, o novo alcaide da São Sebastião não largaria o osso, e tinha poderes para tal.
Ainda assim foram felizes, já nostálgicos, caminhando para a Cinelândia novamente.
Lá se conheceram mais, sentaram à mesa no Amarelinho – centenário bar – discutiram política, beberam chopps, fumaram cigarros e tiveram no fundo a certeza que nada daquilo serviria para derrubar um político que tinha toda uma série de interesses por trás de sua cadeira de prefeito, mas também tinham a consciência que nada daquilo seria esquecido por quem estava lá.

Um casal que acabara de entrar na terceira idade se aproximara da mesa que só tinha agora três daquela galera toda que antes estava no bar. Viram os rostos pintados, riram, deram apoio e pagaram a conta de infindáveis chopps e batatas fritas pedidas.
Ao saírem, os três riam satisfeitos... E olhando um para o outro disseram quase ao mesmo tempo:

- Vamos pedir tudo de novo?!

Assim beberam e comeram duplamente. A ruiva contando sua vida, o rapaz calado divagando sobre sexo e o rapaz que deixara de ir à aula falando de cinema...

E naquele momento a Cinelândia parecia-lhes indescritivelmente, Paris.