Vinha de uma longa linhagem de beberrões, uma dinastia que tinha como cetro por vezes uma taça, por outras um copo – sempre cheio, claro.
Não podia ele, o mais novo de sua estirpe, degenerar dos seus. Sua árvore genealógica apresentava, dos dois lados, genes que se entremeavam à vinhas e arbustos de lúpulo.
Com certa elegância que só a nobreza alcoólica pode trazer, a vida era sorvida de forma a destilar terceiras intenções em oportunidades. Vexames já foram dados, é claro. Mas quem ouve Vinícius de Moraes não pode se dar ao luxo de ser um evangélico sóbrio de resignação.
Lembrava de sua avó falando com certo tom de reprovação;
“Pedro, meu filho, você é um pinguço... Não descansa enquanto não vê o fundo do copo!”; e ria-se com saudades de todos aqueles brasões...
sábado, 28 de novembro de 2009
domingo, 15 de novembro de 2009
Prostituída.
Estava sentada em um bar qualquer, descabelada, decadente.
Em sua mão a única chama que ainda flamejava era a brasa de um cigarro barato que deram-lhe por piedade, a outrora vistosa tocha que acendia a paixão no coração dos homens se resumira a uma triste brasa de cigarro barato.
Suas grandes olheiras evidenciavam que não conseguia mais cegar os que antes envolvia com suas seduções de puta barata. Deixavam explícitas que as noites insones de neurose e de delírios persecutórios a levaram à exaustão.
Pensava em sua vulgaridade naqueles trajes antiquados. Seu gorro vermelho dava-lhe uma ridícula aparência de jovialidade forçada e pretensiosa que contrastava com suas tetas flácidas pela permissividade com que tinha dado de mamar a tantos e tantos outros. Em nada lembrava aquela sedutora imagem que um embevecido jovem francês pintara um dia: a tela exibia um belo seio desnudo, nos lábios um sorriso de promessas falsas e envolventes e da tela só restara lembranças. Tinha a vendido por míseros vinténs a fim de sustentar seus vícios mais baixos e vis. Agora lhe corria pelas veias a podridão de seus anos de displicência, da qual tentava maquiar com um rouge no rosto que – recorrentemente - lhe dava um aspecto de vergonha digno de um misto de desprezo e pena que não poderia conhecer compaixão.
Era tudo uma ilusão. Não tinha mais pudor, não tinha nada a perder.
A vergonha era algo que tinha deixado para trás junto de sua dignidade, nada mais a surpreendia já que quando não há mais expectativas, não há como decepcionar a ninguém, nem a si próprio.
Estava ressaquenta, havia regurgitado os restos de toda sorte de imundices que engolira goela abaixo, mas ainda insistia na tentativa de flertar com um estranho, precisava se embriagar novamente na garrafa de líquido viscoso e de gosto forte.
Todos a ignoravam. Não conseguira nem um gole de seu drink, se contentara à lamber a poça melada que secara no balcão do bar, da mesma forma que as pessoas contentaram-se com sua presença. Deixaram-na entrar desde que não fizesse barulho.
Ledo engano. Acabou fazendo um esporro, tocara o rebú, falara baixarias e batia carteiras entre uma rapidinha e outra. Mas tudo aquilo havia sido na noite anterior. Já era madrugada e sentia-se sozinha - como a boa meretriz que era - após uma noite daquelas.
O cigarro queimara-lhe os dedos ossudos, ela em si já estava toda queimada pelas marcas de sua história; se coroava de um passado de (in)glórias com um sorriso amarelado. Tudo nela era capenga, torto, distorcido.
Era causa e conseqüência de suas desgraças e das desgraças de muitos outros. Fez fenecer com ela os jovens sonhadores, destruiu consigo famílias, deturpou com sua presença até mesmo a esperança.
Sempre fora uma viúva dissimulada, daquelas que qualquer um pode se servir.
Mas espere! Um novo freguês no bar!
O dia amanheceu, ajeitou sua juba desgrenhadamente, passou seu rouge maquiando suas rugas e acendeu outro cigarro barato, se insinuando para o pobre-diabo. O tal freguês, sem galanteios, queria saber como se chamava.
Havia respondido sussurrando com sua voz rouca.
Seu nome, era República.
Em sua mão a única chama que ainda flamejava era a brasa de um cigarro barato que deram-lhe por piedade, a outrora vistosa tocha que acendia a paixão no coração dos homens se resumira a uma triste brasa de cigarro barato.
Suas grandes olheiras evidenciavam que não conseguia mais cegar os que antes envolvia com suas seduções de puta barata. Deixavam explícitas que as noites insones de neurose e de delírios persecutórios a levaram à exaustão.
Pensava em sua vulgaridade naqueles trajes antiquados. Seu gorro vermelho dava-lhe uma ridícula aparência de jovialidade forçada e pretensiosa que contrastava com suas tetas flácidas pela permissividade com que tinha dado de mamar a tantos e tantos outros. Em nada lembrava aquela sedutora imagem que um embevecido jovem francês pintara um dia: a tela exibia um belo seio desnudo, nos lábios um sorriso de promessas falsas e envolventes e da tela só restara lembranças. Tinha a vendido por míseros vinténs a fim de sustentar seus vícios mais baixos e vis. Agora lhe corria pelas veias a podridão de seus anos de displicência, da qual tentava maquiar com um rouge no rosto que – recorrentemente - lhe dava um aspecto de vergonha digno de um misto de desprezo e pena que não poderia conhecer compaixão.
Era tudo uma ilusão. Não tinha mais pudor, não tinha nada a perder.
A vergonha era algo que tinha deixado para trás junto de sua dignidade, nada mais a surpreendia já que quando não há mais expectativas, não há como decepcionar a ninguém, nem a si próprio.
Estava ressaquenta, havia regurgitado os restos de toda sorte de imundices que engolira goela abaixo, mas ainda insistia na tentativa de flertar com um estranho, precisava se embriagar novamente na garrafa de líquido viscoso e de gosto forte.
Todos a ignoravam. Não conseguira nem um gole de seu drink, se contentara à lamber a poça melada que secara no balcão do bar, da mesma forma que as pessoas contentaram-se com sua presença. Deixaram-na entrar desde que não fizesse barulho.
Ledo engano. Acabou fazendo um esporro, tocara o rebú, falara baixarias e batia carteiras entre uma rapidinha e outra. Mas tudo aquilo havia sido na noite anterior. Já era madrugada e sentia-se sozinha - como a boa meretriz que era - após uma noite daquelas.
O cigarro queimara-lhe os dedos ossudos, ela em si já estava toda queimada pelas marcas de sua história; se coroava de um passado de (in)glórias com um sorriso amarelado. Tudo nela era capenga, torto, distorcido.
Era causa e conseqüência de suas desgraças e das desgraças de muitos outros. Fez fenecer com ela os jovens sonhadores, destruiu consigo famílias, deturpou com sua presença até mesmo a esperança.
Sempre fora uma viúva dissimulada, daquelas que qualquer um pode se servir.
Mas espere! Um novo freguês no bar!
O dia amanheceu, ajeitou sua juba desgrenhadamente, passou seu rouge maquiando suas rugas e acendeu outro cigarro barato, se insinuando para o pobre-diabo. O tal freguês, sem galanteios, queria saber como se chamava.
Havia respondido sussurrando com sua voz rouca.
Seu nome, era República.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Rio Branco Arrondissement (parte I)
Outubro. As eleições municipais acabaram de ocorrer e a acirradissima disputa para a prefeitura do Rio de Janeiro foi marcada pelas irregularidades que o prefeito recém eleito cometera para alcançar o Palácio da Cidade.
Passando pelo belo Aterro do Flamengo, pensava que Burle Marx certamente não projetou aquela obra-prima verde matando aulas e provas exatamente como ele estava fazendo.
A manifestação iria até a sede do Supremo Tribunal Regional pedir a impugnação da candidatura do prefeito eleito, isso se tivessem mais pessoas do que aquela meia dúzia de gatos-pingados, que já estavam em frente a Câmara dos Vereadores na hora que chegara.
Naquele azul de arrebentar as retinas e aquele ar de artes inspirado pela imponente arquitetura da Cinelândia, pensava que finalmente a primavera trazia um pouco mais de consciência política à juventude carioca. Isso se eles chegassem!
Ao pintar os cartazes com os dizeres de ordem, começava a sentir borboletas no estomago, cogitando se não teria mais valido a pena fazer a porra da prova ao em vez de participar de uma manifestação a lá “incrível exercito de Brancaleone”...
Mas as borboletas no estomago não deixaram de sair quando viu emergir das escadarias subterrâneas da estação de metrô, centenas de jovens, um mar alegre onde apitos, cornetas e tambores soavam contrastando com as roupas pretas que denotavam o luto pelo Rio.
Todos se aglomeravam nas escadarias do Palácio Pedro Ernesto, o quadrilátero que compreendia o Palácio, o Municipal, a Biblioteca Nacional e o Monumento, era pequeno para tantas pessoas.
Cantou-se o Hino Nacional à voz de pelo menos 5 mil pessoas. A emoção era indescritível, como em uníssono de esperança. Inesperadamente estava ele com seus amigos e outras pessoas até então desconhecidas a frente de toda aquela imensa turba, a faixa estampada “democracia” era segurada ao centro por ele, e no seu lado uma ruiva que antes o pintara com as cores da pátria.
Não conhecia a ruiva que estava ao seu lado, nem o cara que estava no outro e muito menos 4.990 pessoas dali – certamente. Mas ao caminhar com eles, ao gritar com eles, ao dar o passo a todas aquelas pessoas, surgiu algo muito maior.
Uma cumplicidade e um sentimento fraterno enorme. Vozes embargadas, olhos cheios de lágrimas... Isso era algo que nunca sairia da cabeça daquelas pessoas.
Passando pelo belo Aterro do Flamengo, pensava que Burle Marx certamente não projetou aquela obra-prima verde matando aulas e provas exatamente como ele estava fazendo.
A manifestação iria até a sede do Supremo Tribunal Regional pedir a impugnação da candidatura do prefeito eleito, isso se tivessem mais pessoas do que aquela meia dúzia de gatos-pingados, que já estavam em frente a Câmara dos Vereadores na hora que chegara.
Naquele azul de arrebentar as retinas e aquele ar de artes inspirado pela imponente arquitetura da Cinelândia, pensava que finalmente a primavera trazia um pouco mais de consciência política à juventude carioca. Isso se eles chegassem!
Ao pintar os cartazes com os dizeres de ordem, começava a sentir borboletas no estomago, cogitando se não teria mais valido a pena fazer a porra da prova ao em vez de participar de uma manifestação a lá “incrível exercito de Brancaleone”...
Mas as borboletas no estomago não deixaram de sair quando viu emergir das escadarias subterrâneas da estação de metrô, centenas de jovens, um mar alegre onde apitos, cornetas e tambores soavam contrastando com as roupas pretas que denotavam o luto pelo Rio.
Todos se aglomeravam nas escadarias do Palácio Pedro Ernesto, o quadrilátero que compreendia o Palácio, o Municipal, a Biblioteca Nacional e o Monumento, era pequeno para tantas pessoas.
Cantou-se o Hino Nacional à voz de pelo menos 5 mil pessoas. A emoção era indescritível, como em uníssono de esperança. Inesperadamente estava ele com seus amigos e outras pessoas até então desconhecidas a frente de toda aquela imensa turba, a faixa estampada “democracia” era segurada ao centro por ele, e no seu lado uma ruiva que antes o pintara com as cores da pátria.
Não conhecia a ruiva que estava ao seu lado, nem o cara que estava no outro e muito menos 4.990 pessoas dali – certamente. Mas ao caminhar com eles, ao gritar com eles, ao dar o passo a todas aquelas pessoas, surgiu algo muito maior.
Uma cumplicidade e um sentimento fraterno enorme. Vozes embargadas, olhos cheios de lágrimas... Isso era algo que nunca sairia da cabeça daquelas pessoas.
Rio Branco Arrondissement (parte II)
Por estar na frente, fora fotografado pelos fotógrafos. Talvez pelo chapéu de bobo da corte que suas irmãs deram-no após uma viagem à Praga, talvez pela ruiva que levava com o braço insistentemente erguido a bandeira do Brasil – numa dúvida em que segurar, a faixa ou a bandeira.
Pessoas paravam de trabalhar em seus escritórios no Centro da Cidade e iam para as janelas. Era olhar para cima e ver os vertiginosos arranha-céus com suas mil janelas, com mil cabeças curiosas, que ovacionavam jogando papel picado, num espetáculo de vozes, cores e força que mostrou uma juventude muito menos alienada do que se falava.
Fez-se um minuto de silêncio em frente ao STR, fez-se gritar, fez-se ouvir a voz de jovens que não queriam mais aquilo para a sua cidade. E tudo isso deu repercussão, mas caiu por terra. Uma vez galgado, o novo alcaide da São Sebastião não largaria o osso, e tinha poderes para tal.
Ainda assim foram felizes, já nostálgicos, caminhando para a Cinelândia novamente.
Lá se conheceram mais, sentaram à mesa no Amarelinho – centenário bar – discutiram política, beberam chopps, fumaram cigarros e tiveram no fundo a certeza que nada daquilo serviria para derrubar um político que tinha toda uma série de interesses por trás de sua cadeira de prefeito, mas também tinham a consciência que nada daquilo seria esquecido por quem estava lá.
Um casal que acabara de entrar na terceira idade se aproximara da mesa que só tinha agora três daquela galera toda que antes estava no bar. Viram os rostos pintados, riram, deram apoio e pagaram a conta de infindáveis chopps e batatas fritas pedidas.
Ao saírem, os três riam satisfeitos... E olhando um para o outro disseram quase ao mesmo tempo:
- Vamos pedir tudo de novo?!
Assim beberam e comeram duplamente. A ruiva contando sua vida, o rapaz calado divagando sobre sexo e o rapaz que deixara de ir à aula falando de cinema...
E naquele momento a Cinelândia parecia-lhes indescritivelmente, Paris.
Pessoas paravam de trabalhar em seus escritórios no Centro da Cidade e iam para as janelas. Era olhar para cima e ver os vertiginosos arranha-céus com suas mil janelas, com mil cabeças curiosas, que ovacionavam jogando papel picado, num espetáculo de vozes, cores e força que mostrou uma juventude muito menos alienada do que se falava.
Fez-se um minuto de silêncio em frente ao STR, fez-se gritar, fez-se ouvir a voz de jovens que não queriam mais aquilo para a sua cidade. E tudo isso deu repercussão, mas caiu por terra. Uma vez galgado, o novo alcaide da São Sebastião não largaria o osso, e tinha poderes para tal.
Ainda assim foram felizes, já nostálgicos, caminhando para a Cinelândia novamente.
Lá se conheceram mais, sentaram à mesa no Amarelinho – centenário bar – discutiram política, beberam chopps, fumaram cigarros e tiveram no fundo a certeza que nada daquilo serviria para derrubar um político que tinha toda uma série de interesses por trás de sua cadeira de prefeito, mas também tinham a consciência que nada daquilo seria esquecido por quem estava lá.
Um casal que acabara de entrar na terceira idade se aproximara da mesa que só tinha agora três daquela galera toda que antes estava no bar. Viram os rostos pintados, riram, deram apoio e pagaram a conta de infindáveis chopps e batatas fritas pedidas.
Ao saírem, os três riam satisfeitos... E olhando um para o outro disseram quase ao mesmo tempo:
- Vamos pedir tudo de novo?!
Assim beberam e comeram duplamente. A ruiva contando sua vida, o rapaz calado divagando sobre sexo e o rapaz que deixara de ir à aula falando de cinema...
E naquele momento a Cinelândia parecia-lhes indescritivelmente, Paris.
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