[Esse post foi revisado, devido a minha irritação com a mediocridade do texto abaixo. Obrigado.]
Engraçado como mudei. Estou tão indiferente à diferença nos últimos tempos que só agora pude constatar isso. Já não sinto mais por toda aquela situação com “amigos” perdidos, já não me sobe à cabeça aquela irritação devastadora que há algum tempo atrás derrubarias árvores, quebraria copos e auto destruiria-se num rompante de lágrimas emputecidas nos conflitos caseiros e adjacentes.
Leve. Essa é a palavra. Sinto-me tão leve, despreocupado que quase beiro a imbecilidade da indiferença total.
É um sentimento novo e muito bom, devo admitir. Não me importo tanto com as coisas, as porradarias são encaradas com uma tranqüilidade assombrante, as eventuais deturpações e ofensas que podem ser dirigidas a mim são digeridas com um curioso riso de superioridade nos lábios, que alias, não falam mais tanto quanto antes.
Mas não é uma superioridade arrogante, aquele orgulho leonino-adolescente incomensurável que já tive, é uma superioridade à essas situações tão pequenas.
Não quer dizer que tenha me tornado alguém antipático, apático. Continuo na mesma essencia da simpatia, do bom humor gratuito, daquelas situações que vc vê uma pessoa sorrindo pra vc na rua ao mero acaso, sem nada ter feito para tal. Esse continua a ser. Despreocupado. Uma simpatia despreocupada.
Talvez eu esteja me tornando definitivamente blasé, desanuviado, compenetrado em mim mesmo. O curioso é que isso será interpretado de várias formas por outrem(s).
Serei avaliado como alguém mais metido; sábio; calmo; indiferente; despreocupado; e posso continuar infinitamente com outros adjetivos relativos a isso, entre vários ponto e vírgulas.
Descobri a pouco tempo o uso do ponto e vírgula, e achei deveras interessante. E viva o parnasianismo!
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Futuro do Premérito
Manuel estava definitivamente tranqüilo.
Certas situações desagradáveis e algumas porradas que a vida dá sempre acabam acrescentando experiências, e a liberdade do descompromisso que deram à Manuel tinha deixado-o bastante satisfeito.
Ele simplesmente não se importava mais. Sabia que se comparecesse iria ser legal, tomaria umas e outras com os “velhos amigos”, exerceria a arte de ver e ser visto, e no dia seguinte sequer dariam um telefonema.
Estaria ébrio pelas bebidas caras que tomou no bar, no dia seguinte juraria que nunca mais beberia daquela forma, exatamente como jurou que não prestigiaria mais aqueles babacas, tantas e tantas vezes.
Mas uma coisa mudou e Manuel, entre pílulas de plasil, engov e novalgina (que guardava na carteira com o infame nome de kit-manguaça), já não percebera que mesmo estando lá não prestigiaria ninguém.
Ele estava lá e pronto, o apreço tinha sumido tal qual o sentido de tantos nomes empoeirados na sua agenda.
- Maneco, Maneco... – pensava ele – Você sabe que há a chance de não ir naquela pocilga dispendiosa e sequer dar qualquer satisfação no dia seguinte, e mesmo assim faz suposições do contrário no futuro do pretérito.
- Na boa? Vamos é nos esconder ou beber com os amigos com um taco de boteco na mão, que de barões escrotos eu já me enchi! – Disse ele parando de escrever qualquer coisa em seu caderno público....
Certas situações desagradáveis e algumas porradas que a vida dá sempre acabam acrescentando experiências, e a liberdade do descompromisso que deram à Manuel tinha deixado-o bastante satisfeito.
Ele simplesmente não se importava mais. Sabia que se comparecesse iria ser legal, tomaria umas e outras com os “velhos amigos”, exerceria a arte de ver e ser visto, e no dia seguinte sequer dariam um telefonema.
Estaria ébrio pelas bebidas caras que tomou no bar, no dia seguinte juraria que nunca mais beberia daquela forma, exatamente como jurou que não prestigiaria mais aqueles babacas, tantas e tantas vezes.
Mas uma coisa mudou e Manuel, entre pílulas de plasil, engov e novalgina (que guardava na carteira com o infame nome de kit-manguaça), já não percebera que mesmo estando lá não prestigiaria ninguém.
Ele estava lá e pronto, o apreço tinha sumido tal qual o sentido de tantos nomes empoeirados na sua agenda.
- Maneco, Maneco... – pensava ele – Você sabe que há a chance de não ir naquela pocilga dispendiosa e sequer dar qualquer satisfação no dia seguinte, e mesmo assim faz suposições do contrário no futuro do pretérito.
- Na boa? Vamos é nos esconder ou beber com os amigos com um taco de boteco na mão, que de barões escrotos eu já me enchi! – Disse ele parando de escrever qualquer coisa em seu caderno público....
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
A soma dos consensos
Escrever é algo definitivamente egoísta.
Em romances de ficção pelo menos há um consolo, aquelas personagens são irreais, produtos da imaginação do autor que no final podem ficar retidas na nossa própria imaginação.
O foda mesmo é quando o livro não é uma ficção. Acabei de ler agora o livro Paula, de Isabel Allende.
Já tinha lido outros livros da autora, que nos últimos tempos tornou-se uma das minhas preferidas, mas esse livro é diferente.
Paula era a filha de Isabel Allende que aos 27 anos teve um ataque de porfiria e morreu no ano seguinte, estando nesse meio tempo estática, em coma.
O livro foi sendo escrito pela autora para que quando Paula acordasse pudesse ler e lembrar da história de sua família, de seus pais e de seu país
Paula não acorda, mas com certeza eu despertei para um fascínio incrível por essa mulher fantástica, essa Isabel Allende e sua família de vivências extraordinárias.
O livro acabou. E com ele acabou a vida de Paula.
Sem dúvida, extremamente emocionante, com passagens tão repletas de sentimento e de emoções reais que não era difícil me pegar embargado.
Ao longo das páginas fui ficando intimo de Isabel, amigo de Tata, admirador de Tio Ramon, e com uma ligação surpreendente com tantas outras personagens. Vejo que outro livro dela A Casa dos Espíritos foi baseado na história de sua avó, e já me vejo ávido por lê-lo inteiro.
É engraçado isso. Talvez isso esteja acontecendo pelo meu distanciamento das pessoas, pelas poucas relações de afeto que venho tendo. Distancio-me da realidade e das relações para me envolver com personagens que – ainda que reais - só me são palpáveis por mero toque no papel.
Não quero saber disso. Talvez esteja me tornando algo que nunca pude imaginar, e sobre isso depois eu escrevo algo melhor. Mas mesmo assim vou continuar nessa senda.
Por mais que possa me sentir totalmente órfão quando chego a ultima página, por mais que me sinta distante – verdadeiramente distante! – daquelas pessoas por quem se criou um vínculo unilateral, estou bem assim.
Pero que si, pero que no, prefiro a companhia de meus livros e da gigantesca biblioteca de minha casa e de minha avó (que um dia unir-se-ão como uma una biblioteca, sobre meu protetorado) do que as parcas e pobres amizades perecíveis que vejo ao meu redor.
As boas mantém-se, são etéreas.
E ainda que escrever seja algo definitivamente egoísta, a boa companhia de meus livros certamente nunca me faltará.
Em romances de ficção pelo menos há um consolo, aquelas personagens são irreais, produtos da imaginação do autor que no final podem ficar retidas na nossa própria imaginação.
O foda mesmo é quando o livro não é uma ficção. Acabei de ler agora o livro Paula, de Isabel Allende.
Já tinha lido outros livros da autora, que nos últimos tempos tornou-se uma das minhas preferidas, mas esse livro é diferente.
Paula era a filha de Isabel Allende que aos 27 anos teve um ataque de porfiria e morreu no ano seguinte, estando nesse meio tempo estática, em coma.
O livro foi sendo escrito pela autora para que quando Paula acordasse pudesse ler e lembrar da história de sua família, de seus pais e de seu país
Paula não acorda, mas com certeza eu despertei para um fascínio incrível por essa mulher fantástica, essa Isabel Allende e sua família de vivências extraordinárias.
O livro acabou. E com ele acabou a vida de Paula.
Sem dúvida, extremamente emocionante, com passagens tão repletas de sentimento e de emoções reais que não era difícil me pegar embargado.
Ao longo das páginas fui ficando intimo de Isabel, amigo de Tata, admirador de Tio Ramon, e com uma ligação surpreendente com tantas outras personagens. Vejo que outro livro dela A Casa dos Espíritos foi baseado na história de sua avó, e já me vejo ávido por lê-lo inteiro.
É engraçado isso. Talvez isso esteja acontecendo pelo meu distanciamento das pessoas, pelas poucas relações de afeto que venho tendo. Distancio-me da realidade e das relações para me envolver com personagens que – ainda que reais - só me são palpáveis por mero toque no papel.
Não quero saber disso. Talvez esteja me tornando algo que nunca pude imaginar, e sobre isso depois eu escrevo algo melhor. Mas mesmo assim vou continuar nessa senda.
Por mais que possa me sentir totalmente órfão quando chego a ultima página, por mais que me sinta distante – verdadeiramente distante! – daquelas pessoas por quem se criou um vínculo unilateral, estou bem assim.
Pero que si, pero que no, prefiro a companhia de meus livros e da gigantesca biblioteca de minha casa e de minha avó (que um dia unir-se-ão como uma una biblioteca, sobre meu protetorado) do que as parcas e pobres amizades perecíveis que vejo ao meu redor.
As boas mantém-se, são etéreas.
E ainda que escrever seja algo definitivamente egoísta, a boa companhia de meus livros certamente nunca me faltará.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Emmenez-moi
Meus pais conheceram-no há 14 anos atrás, quando foram apresentados à ele como professor de francês.
Simeon é dessas pessoas que tem uma extraordinária história de vida.
Francês de Bordeaux, Simeon saiu da França deixando dois filhos e uma ex-esposa.
Assumindo sua homossexualidade, separou-se da sua mulher, deixou pra trás uma difícil relação com os filhos e veio com a roupa do corpo para o Brasil dar aulas de francês por três meses.
Esses três meses hoje somam 14 anos. Apaixonou-se pelo país e pelo Rio, mesmo com o baque da cultura, das diferenças e hábitos – muitas vezes combinados com a total falta de dinheiro.
Os estranhamentos culturais foram sendo superados, e hoje (como conversamos no jantar) são lembrados como histórias engraçadas.
Como o fato do abraço apertado (tão comum aos cariocas!) é tido na França como praticamente um convite para uma noite de sexo selvagem (!!).
E quando ele viu minha mãe abraçando-o na frente de meu pai, horrorizado exclamava “Ne me touche pás! Ne me touche pás!” enquanto meus pais riam explicando que aquilo era comum por aqui...
O fato de que durante um tempo sem dinheiro nem para um cafezinho, pediu aos meus pais um dinheiro emprestado. Sintiu-se humilhado, completamente envergonhado, uma vez que é impossível na concepção de um francês, pedir dinheiro a qualquer um, mesmo a um amigo, que é mais fácil deixar-se morrer de fome do que pedir.
“É o maldito orgulho de merda dos françaises...” – diria ele com seu sotaque...
Contando como está sua vida hoje, Simeon disse que seus filhos (antes brigados) já pensam em comprar um apartamento no Rio para passar as férias, que seus pais já pensam em visitá-lo no Brasil (antes um terra de selvagens) e que mesmo vivendo num país estranho, desconhecido (hoje admirado), assumindo suas escolhas, tudo se ajeitou, e bem-sucedido (está para inaugurar uma pousada foda em Barra de Guaratiba, um dos lugares mais bonitos do Rio) não pensa como poderia ser mais feliz.
E tirando a parte da homossexualidade, me identifico muito com a história de Simeon.
Como a escolha de sair de seu país de origem, sem rumo, andarilho e sem destino.
Com apenas uma diferença: voltar ao Brasil, porque bem ou mal, sou irremediavelmente apaixonado por isso aqui.
Imagino que Simeon possa ter sido influenciado pelas letras de Aznavour, onde ele fala exatamente isso. E das quais eu sempre me deixo levar com um sentimento único de pegar o primeiro avião que me aparecer pela frente, apesar de já estar no meio da terra.
“Emmenez-moi au bout de la terre
Emmenez-moi au pays des merveilles
Il me semble que la misère
Serait moins pénible au soleil”
[Ainda que seja mera ilusão que a miséria é menos penosa sob o Sol...]
Simeon é dessas pessoas que tem uma extraordinária história de vida.
Francês de Bordeaux, Simeon saiu da França deixando dois filhos e uma ex-esposa.
Assumindo sua homossexualidade, separou-se da sua mulher, deixou pra trás uma difícil relação com os filhos e veio com a roupa do corpo para o Brasil dar aulas de francês por três meses.
Esses três meses hoje somam 14 anos. Apaixonou-se pelo país e pelo Rio, mesmo com o baque da cultura, das diferenças e hábitos – muitas vezes combinados com a total falta de dinheiro.
Os estranhamentos culturais foram sendo superados, e hoje (como conversamos no jantar) são lembrados como histórias engraçadas.
Como o fato do abraço apertado (tão comum aos cariocas!) é tido na França como praticamente um convite para uma noite de sexo selvagem (!!).
E quando ele viu minha mãe abraçando-o na frente de meu pai, horrorizado exclamava “Ne me touche pás! Ne me touche pás!” enquanto meus pais riam explicando que aquilo era comum por aqui...
O fato de que durante um tempo sem dinheiro nem para um cafezinho, pediu aos meus pais um dinheiro emprestado. Sintiu-se humilhado, completamente envergonhado, uma vez que é impossível na concepção de um francês, pedir dinheiro a qualquer um, mesmo a um amigo, que é mais fácil deixar-se morrer de fome do que pedir.
“É o maldito orgulho de merda dos françaises...” – diria ele com seu sotaque...
Contando como está sua vida hoje, Simeon disse que seus filhos (antes brigados) já pensam em comprar um apartamento no Rio para passar as férias, que seus pais já pensam em visitá-lo no Brasil (antes um terra de selvagens) e que mesmo vivendo num país estranho, desconhecido (hoje admirado), assumindo suas escolhas, tudo se ajeitou, e bem-sucedido (está para inaugurar uma pousada foda em Barra de Guaratiba, um dos lugares mais bonitos do Rio) não pensa como poderia ser mais feliz.
E tirando a parte da homossexualidade, me identifico muito com a história de Simeon.
Como a escolha de sair de seu país de origem, sem rumo, andarilho e sem destino.
Com apenas uma diferença: voltar ao Brasil, porque bem ou mal, sou irremediavelmente apaixonado por isso aqui.
Imagino que Simeon possa ter sido influenciado pelas letras de Aznavour, onde ele fala exatamente isso. E das quais eu sempre me deixo levar com um sentimento único de pegar o primeiro avião que me aparecer pela frente, apesar de já estar no meio da terra.
“Emmenez-moi au bout de la terre
Emmenez-moi au pays des merveilles
Il me semble que la misère
Serait moins pénible au soleil”
[Ainda que seja mera ilusão que a miséria é menos penosa sob o Sol...]
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
Previsão do Tempo
Um calor infernal; um chá feito péssimamente mal; uma merda de uma luz fraca que deixa o ambiente em uma penumbra irritante.
Esses são alguns fatores que contribuem para meu atual estado de espírito.
Engraçado pensar que ontem mesmo minha cabeça era outra. Por mais que tenha estado consciente do cu de vida que venho levando, a empolgação com esse Blog semi-moribundo (sei que quase ninguém lê isso aqui...) e cativantes idéias de escrever sobre minha atual compulsão com a leitura, tinham me animado.
Bem, a postagem sobre a leitura fica pra outro dia. Pelo menos em parte.
Escrevendo o esboço dessa postagem aqui, cheguei a conclusão que talvez eu esteja mergulhado e envolvido de maneira tão intensa com a leitura justamente para tentar me abstrair. Sorvendo página à página eu esqueço, um pouco, tudo que me ronda. E devido à escassez de amigos, de amores e de compromisso, a leitura é o que me resta.
Me impressiona a habilidade que eu tenho de buscar a felicidade. Eu vivo atrás dela incansavelmente. Mesmo no fundo do poço, mesmo tendo me fodido de verde e amarelo eu ainda busco-a no mais inacreditável otimismo que as circunstâncias podem permitir.
Não quer dizer que não tenha meus momentos de infelicidade, tenho sim. Mas costumo logo a recuperar-me, ainda que os versos de Vinícius custem a sair da cabeça dizendo,
“Tristeza não tem fim, felicidade sim.”
Pode-se resumir meus momentos atuais em ápices, síncopes bipolares de humor. Alterno entre o mais profundo otimismo – ainda que nadando envolto por excrementos – e a maior sensação de impotência.
Quem dera eu que um milagroso remedinho azul resolvesse-a. Alias, disposição quanto à esse tipo de impotência não me falta, visto que minha vida amorosa (se é que ainda tenho uma) está um lixo e consequentemente “energia” para a tal coisas é o que sobra.
Impotência no sentido de estar com as mãos atadas, de ter atingido o ponto de usar clichês baratos como “cheguei ao fundo do poço”, como vocês podem constatar acima.
Uma das poucas coisas que me resta - além da leitura e desse blog - são ótimas conversas, desabafos e identificações que venho tendo inesperadamente com uma desconhecida (que se torna cada vez mais conhecida) que mora em outro estado e que sempre dispõem de uma sanidade e estado de espírito cativantes.
Nesse ínterim, minha criatividade e inspiração (ou a falta dela) estão acabando junto com o chá forte e amargo que está esfriando na xícara à minha frente.
Alguns acreditam na arte de ler a Sorte na borra de chá que fica como resquício na xícara.
Sou um analfabeto nessas leituras, mas se pudesse conjurar dos livros de Isabel Allende sua avó vidente, a Memé, acho que ela me olharia e diria para retomar as rédeas da minha vida novamente.
E sabemos que Memé não erra, não é Isabel?
Esses são alguns fatores que contribuem para meu atual estado de espírito.
Engraçado pensar que ontem mesmo minha cabeça era outra. Por mais que tenha estado consciente do cu de vida que venho levando, a empolgação com esse Blog semi-moribundo (sei que quase ninguém lê isso aqui...) e cativantes idéias de escrever sobre minha atual compulsão com a leitura, tinham me animado.
Bem, a postagem sobre a leitura fica pra outro dia. Pelo menos em parte.
Escrevendo o esboço dessa postagem aqui, cheguei a conclusão que talvez eu esteja mergulhado e envolvido de maneira tão intensa com a leitura justamente para tentar me abstrair. Sorvendo página à página eu esqueço, um pouco, tudo que me ronda. E devido à escassez de amigos, de amores e de compromisso, a leitura é o que me resta.
Me impressiona a habilidade que eu tenho de buscar a felicidade. Eu vivo atrás dela incansavelmente. Mesmo no fundo do poço, mesmo tendo me fodido de verde e amarelo eu ainda busco-a no mais inacreditável otimismo que as circunstâncias podem permitir.
Não quer dizer que não tenha meus momentos de infelicidade, tenho sim. Mas costumo logo a recuperar-me, ainda que os versos de Vinícius custem a sair da cabeça dizendo,
“Tristeza não tem fim, felicidade sim.”
Pode-se resumir meus momentos atuais em ápices, síncopes bipolares de humor. Alterno entre o mais profundo otimismo – ainda que nadando envolto por excrementos – e a maior sensação de impotência.
Quem dera eu que um milagroso remedinho azul resolvesse-a. Alias, disposição quanto à esse tipo de impotência não me falta, visto que minha vida amorosa (se é que ainda tenho uma) está um lixo e consequentemente “energia” para a tal coisas é o que sobra.
Impotência no sentido de estar com as mãos atadas, de ter atingido o ponto de usar clichês baratos como “cheguei ao fundo do poço”, como vocês podem constatar acima.
Uma das poucas coisas que me resta - além da leitura e desse blog - são ótimas conversas, desabafos e identificações que venho tendo inesperadamente com uma desconhecida (que se torna cada vez mais conhecida) que mora em outro estado e que sempre dispõem de uma sanidade e estado de espírito cativantes.
Nesse ínterim, minha criatividade e inspiração (ou a falta dela) estão acabando junto com o chá forte e amargo que está esfriando na xícara à minha frente.
Alguns acreditam na arte de ler a Sorte na borra de chá que fica como resquício na xícara.
Sou um analfabeto nessas leituras, mas se pudesse conjurar dos livros de Isabel Allende sua avó vidente, a Memé, acho que ela me olharia e diria para retomar as rédeas da minha vida novamente.
E sabemos que Memé não erra, não é Isabel?
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Debutando com a Sinceridade
Fico me perguntando, "cadê aquele cara cheio de amigos, cheio de histórias engraçadas pra contar"?
As histórias ainda estão aqui, quando eu quero e convém eu as conto, até mesmo dou risadas e me divirto com as lembranças. Mas muitas das personagens que estavam nelas nem mais de amigos posso chamar. Hoje são como retratos em sépia. Nada além de lembranças amareladas - resquícios de um passado não tão distante - que um dia protagonizaram alguns momentos.
Sei que hoje eles ainda lembram de mim. Sei que guardam boas lembranças (até mesmo por manter contato ínfimo com alguns deles), tenho até mesmo a noção que sou lembrado entre eles como uma “figurassa”, daqueles que contam e recontam as minhas antigas histórias mais “famosas”.
Mas é isso. É isso?
Minha amizade, meu prestígio, onde estão? Sem dúvidas, é bom saber que se é lembrado dessa forma, mas preferiria mil vezes ter ainda meu prestígio, a proximidade e poder chamá-los de amigos.
Não tem ressentimento nessas palavras, só há um sincero desabafo.
Não faço mais questão de tê-los na estima que tinha antes. As coisas mudam, o tempo passa e eu passei. Mais tarde, quando uns decaírem, alguns manterão o status quo e outros até mesmo ascenderão, e talvez todos se esqueçamos da maior parte das lembranças.
Mas não vou me arrepender disso. Tentei e não houve retorno, paramos por aí.
Posso dizer que me sinto um peixe fora d’água, que não pertenço mais a nada, não tenho mais identificação com coisa alguma.
E que nessa liberdade solitária, novas possibilidades se abrem, não menos penosas e com aparentes péssimas perspectivas – devo admitir.
Preciso encontrar novos amigos. Botem placas, outdoors e panfletos!
Pois à ambigüidade, o cinismo e o laissez-faire das Altas Rodas, prefiro a solidez de algo despretensioso, que em detrimento de glamurosas "amizades" de sobrenomes conhecidos, ainda pode-se dizer que possuo a certeza da rara e preciosa consideração dos que ainda considero.
As histórias ainda estão aqui, quando eu quero e convém eu as conto, até mesmo dou risadas e me divirto com as lembranças. Mas muitas das personagens que estavam nelas nem mais de amigos posso chamar. Hoje são como retratos em sépia. Nada além de lembranças amareladas - resquícios de um passado não tão distante - que um dia protagonizaram alguns momentos.
Sei que hoje eles ainda lembram de mim. Sei que guardam boas lembranças (até mesmo por manter contato ínfimo com alguns deles), tenho até mesmo a noção que sou lembrado entre eles como uma “figurassa”, daqueles que contam e recontam as minhas antigas histórias mais “famosas”.
Mas é isso. É isso?
Minha amizade, meu prestígio, onde estão? Sem dúvidas, é bom saber que se é lembrado dessa forma, mas preferiria mil vezes ter ainda meu prestígio, a proximidade e poder chamá-los de amigos.
Não tem ressentimento nessas palavras, só há um sincero desabafo.
Não faço mais questão de tê-los na estima que tinha antes. As coisas mudam, o tempo passa e eu passei. Mais tarde, quando uns decaírem, alguns manterão o status quo e outros até mesmo ascenderão, e talvez todos se esqueçamos da maior parte das lembranças.
Mas não vou me arrepender disso. Tentei e não houve retorno, paramos por aí.
Posso dizer que me sinto um peixe fora d’água, que não pertenço mais a nada, não tenho mais identificação com coisa alguma.
E que nessa liberdade solitária, novas possibilidades se abrem, não menos penosas e com aparentes péssimas perspectivas – devo admitir.
Preciso encontrar novos amigos. Botem placas, outdoors e panfletos!
Pois à ambigüidade, o cinismo e o laissez-faire das Altas Rodas, prefiro a solidez de algo despretensioso, que em detrimento de glamurosas "amizades" de sobrenomes conhecidos, ainda pode-se dizer que possuo a certeza da rara e preciosa consideração dos que ainda considero.
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Campos idílicos
Não podendo ser diferente, essa postagem foi embalada por uma música que me lembra inevitavelmente o (antigo?) interior do nosso país.
Romaria, interpretado por Elis.
Ontem estava ainda na minha rua, quando vejo um homem vindo com uma muleta mancando, em minha direção. Já estava de noite, era cerca de 9:30 e por viver na cidade que vivo, mantive uma (relativa) distância segura do homem que mancando rápido com sua muleta conseguiu atravessar a tempo de meus passos propositadamente rápidos não passassem-no.
Quando a luz me permitiu ver o sujeito, vi um homem negro, com aparência cansada.
Ele – talvez por ter feito um esforço de andar rápido mancando com sua muleta – apoiou-se num pitoco e pediu pra conversar comigo. Um tanto quanto impaciente e já sem temê-lo, parei e escutei.
Ele apresentou-se, não recordo o nome, mas se não me engano o sobrenome era Barbosa da Silva. Pareceu-me orgulhoso de dizer seu nome todo, falava de forma cansada, sofrida, com um sotaque tipicamente do interior. Disse que eu era um rapaz novo, e que ele já era um homem velho, que não queria me assaltar e nem pedir dinheiro. Ele apesar das roupas velhas, mas inteiras, tinha uma coisa que muitos vestidos de black-tie não têm hoje em dia: dignidade.
Esse foi o primeiro ponto que me chamou atenção, e já ficando com remorso de ter tido um tom impaciente quando pediu-me um minuto, passei a ouvi-lo e não somente escuta-lo.
Disse-me então que era de Minas e disse o nome de uma cidadezinha, que veio ao Rio em busca de trabalho, em busca de pão para sua família, mas que ao em vez de trabalho ele viu foi muitas oportunidades de fazer coisas erradas, coisas que ele um simples homem do interior nunca tinha feito, coisas da cidade grande..
Tinha uma mulher em casa e um filho “já graúno”, complementando logo em seguida que “graúno não é coisa errada não senhô, graúno é menino grande lá no interior”.
Disse isso em meio a um sorriso amarelado, extremamente paternal, seus olhos ao falar do filho se encheram de um brilho, de um orgulho que realmente me comoveu. Disse que além da esposa e do filho tinha uma menina muito doente, que além de ter câncer era excepcional e que como tinha sido atropelado não podia mais trabalhar - mostrando sua perna como prova do acidente. Naquele dia ele iria sair às 11:40 da noite com sua família para a Central do Brasil para pegar um ônibus à meia-noite e retornar à sua cidade natal. Disse que conseguiu o dinheiro que fora juntado nos seis meses que ficou aqui com seu trabalho, e tudo que me pedia era comprar alguma coisa para dar de merenda para suas crianças que estavam com fome.
Vislumbrei dentro da sacola que levava à tira-colo algumas coisas. Ele apressou-se em dizer que aquilo ali “não era coisa errada, não senhô”, que era uns pães e uma garrafinha que uma “dona do prédio ao lado” dera a ele para levar para seus filhos, mostrando o pão e a garrafinha para mim...
Infelizmente (isso me deu um enorme aperto na hora) minha carteira estava com os amigos que ia encontrar, e não tinha um tostão sequer para dar ao pobre homem. Desculpei-me envergonhado, desejei boa sorte e boa viagem e segui meu caminho. Não pensando “graças a Deus, me livrei”, mas sim pesaroso de não poder ajudar aquele pai de família, abalado ao pensar quantos Barbosas da Silva não passavam por situação semelhante. Quantos não vinham às cidades grandes em busca de pão e trabalho e só encontraram oportunidades para se corromperem...
E vi que apesar da pobreza, apesar da dificuldade, a dignidade daquele homem, a nobreza e a honestidade dele eram íntegras.
Esse é o verdadeiro povo do nosso país. Esses são os verdadeiros brasileiros. Em sua maioria pobres, que nunca conheceram os luxos que a vida pode proporcionar a pouquíssimos.
Um povo trabalhador, um povo do campo, rural, que infelizmente hoje vai se perdendo no Brasil industrializado e urbano que emerge.
Com esse povo, com essa gente, parte do nosso país fica pra trás. Parte daquele Brasil sertanejo, sofrido e feliz fica nos livros e na história. E infelizmente na história os Barbosas da Silva da vida não aparecem. Não aparecem aqueles que eram a cara do nosso país, que deram o sangue e a vida trabalhando no nosso solo, com fome nas grandes plantações que por muitas vezes trabalharam, relegados à própria sorte em um Brasil que nem os brasileiros conhecem mais.
Perdemos pouco a pouco nossa identidade, nossas raízes. E esquecemos que só olhando o passado podemos ter um futuro concreto. Ainda que seja um futuro de concreto-armado, se esquece muitas vezes que os avôs dos mesmos grandes empresários e tecnocratas que hoje negam ver os famintos, olhavam pelo menos para essa gente de maneira diferente, uma vez que o campo era a sua vida e o povo era inevitavelmente o campo. O campo que aravam e semeavam com suas esperanças, suas mãos e sua dignidade.
Romaria, interpretado por Elis.
Ontem estava ainda na minha rua, quando vejo um homem vindo com uma muleta mancando, em minha direção. Já estava de noite, era cerca de 9:30 e por viver na cidade que vivo, mantive uma (relativa) distância segura do homem que mancando rápido com sua muleta conseguiu atravessar a tempo de meus passos propositadamente rápidos não passassem-no.
Quando a luz me permitiu ver o sujeito, vi um homem negro, com aparência cansada.
Ele – talvez por ter feito um esforço de andar rápido mancando com sua muleta – apoiou-se num pitoco e pediu pra conversar comigo. Um tanto quanto impaciente e já sem temê-lo, parei e escutei.
Ele apresentou-se, não recordo o nome, mas se não me engano o sobrenome era Barbosa da Silva. Pareceu-me orgulhoso de dizer seu nome todo, falava de forma cansada, sofrida, com um sotaque tipicamente do interior. Disse que eu era um rapaz novo, e que ele já era um homem velho, que não queria me assaltar e nem pedir dinheiro. Ele apesar das roupas velhas, mas inteiras, tinha uma coisa que muitos vestidos de black-tie não têm hoje em dia: dignidade.
Esse foi o primeiro ponto que me chamou atenção, e já ficando com remorso de ter tido um tom impaciente quando pediu-me um minuto, passei a ouvi-lo e não somente escuta-lo.
Disse-me então que era de Minas e disse o nome de uma cidadezinha, que veio ao Rio em busca de trabalho, em busca de pão para sua família, mas que ao em vez de trabalho ele viu foi muitas oportunidades de fazer coisas erradas, coisas que ele um simples homem do interior nunca tinha feito, coisas da cidade grande..
Tinha uma mulher em casa e um filho “já graúno”, complementando logo em seguida que “graúno não é coisa errada não senhô, graúno é menino grande lá no interior”.
Disse isso em meio a um sorriso amarelado, extremamente paternal, seus olhos ao falar do filho se encheram de um brilho, de um orgulho que realmente me comoveu. Disse que além da esposa e do filho tinha uma menina muito doente, que além de ter câncer era excepcional e que como tinha sido atropelado não podia mais trabalhar - mostrando sua perna como prova do acidente. Naquele dia ele iria sair às 11:40 da noite com sua família para a Central do Brasil para pegar um ônibus à meia-noite e retornar à sua cidade natal. Disse que conseguiu o dinheiro que fora juntado nos seis meses que ficou aqui com seu trabalho, e tudo que me pedia era comprar alguma coisa para dar de merenda para suas crianças que estavam com fome.
Vislumbrei dentro da sacola que levava à tira-colo algumas coisas. Ele apressou-se em dizer que aquilo ali “não era coisa errada, não senhô”, que era uns pães e uma garrafinha que uma “dona do prédio ao lado” dera a ele para levar para seus filhos, mostrando o pão e a garrafinha para mim...
Infelizmente (isso me deu um enorme aperto na hora) minha carteira estava com os amigos que ia encontrar, e não tinha um tostão sequer para dar ao pobre homem. Desculpei-me envergonhado, desejei boa sorte e boa viagem e segui meu caminho. Não pensando “graças a Deus, me livrei”, mas sim pesaroso de não poder ajudar aquele pai de família, abalado ao pensar quantos Barbosas da Silva não passavam por situação semelhante. Quantos não vinham às cidades grandes em busca de pão e trabalho e só encontraram oportunidades para se corromperem...
E vi que apesar da pobreza, apesar da dificuldade, a dignidade daquele homem, a nobreza e a honestidade dele eram íntegras.
Esse é o verdadeiro povo do nosso país. Esses são os verdadeiros brasileiros. Em sua maioria pobres, que nunca conheceram os luxos que a vida pode proporcionar a pouquíssimos.
Um povo trabalhador, um povo do campo, rural, que infelizmente hoje vai se perdendo no Brasil industrializado e urbano que emerge.
Com esse povo, com essa gente, parte do nosso país fica pra trás. Parte daquele Brasil sertanejo, sofrido e feliz fica nos livros e na história. E infelizmente na história os Barbosas da Silva da vida não aparecem. Não aparecem aqueles que eram a cara do nosso país, que deram o sangue e a vida trabalhando no nosso solo, com fome nas grandes plantações que por muitas vezes trabalharam, relegados à própria sorte em um Brasil que nem os brasileiros conhecem mais.
Perdemos pouco a pouco nossa identidade, nossas raízes. E esquecemos que só olhando o passado podemos ter um futuro concreto. Ainda que seja um futuro de concreto-armado, se esquece muitas vezes que os avôs dos mesmos grandes empresários e tecnocratas que hoje negam ver os famintos, olhavam pelo menos para essa gente de maneira diferente, uma vez que o campo era a sua vida e o povo era inevitavelmente o campo. O campo que aravam e semeavam com suas esperanças, suas mãos e sua dignidade.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
Um Agosto para se recordar.
Quando meus músculos já doem, e a vontade de mover meus dedos e exercitar meu cérebro é quase nula, uma única e quase irracional vontade de escrever nessa birosca me leva a superar todo o nível etílico que se encontra em meu ser devido a algumas cervejas tomadas há algumas horas atrás...
Pois é, que maravilha é a vida escolar! Esse agora é o ultimo fim de semana antes de voltar para o regime semi-aberto de vida.
Mas nem tudo tem seu lado ruim, tirando a insuportável rotina de acordar as 7:15 da manhã (e se manter acordado nas horas subseqüentes), os funcionários sempre "suuuper" gente boas, típicos de um colégio católico-carola (como diretora Irmã Carmem de um metro e meio com voz nordestina que lembra o Mestre Yoda, o Hamilton, inspetor que lembra o Maguila, ente outras figuras inerraráveis) e aquele bom humor que só a obrigação estudantil pode dar, temos os lados bons da vida!
Minha maioridade - aleluia, amém - está finalmente chegando, meus pais – aleluia, amém – estão finalmente indo embora, viajando durante quase um mês para o outro lado do nosso continente, e um período de Pax Caseira se aproxima entre muita animação e perigosas liberdades...
É amigos, nem só de pão vive o homem, também vive-se de vinho, vodca e outros destilados/fermentados que engrandecem e alegram nossa vida!
E enquanto voltamos às aulas, destilamos a alegria de poder aproveitar um início de bimestre regado a liberdades individuais garantidas, fermentadas por um comprometimento duvidoso com as diretrizes paternas previamente deixadas em solo tupiniquim.
E que venha agosto!
PS: Não podendo de deixar registrado aqui, os meus parabéns pra um amigo, um irmão meu que hoje atinge a maiorida – aleluia, amém – há exatamente uma semana antes que eu! Boa sorte Luluka, vamos precisar dela. E viva a Soninha!
Pois é, que maravilha é a vida escolar! Esse agora é o ultimo fim de semana antes de voltar para o regime semi-aberto de vida.
Mas nem tudo tem seu lado ruim, tirando a insuportável rotina de acordar as 7:15 da manhã (e se manter acordado nas horas subseqüentes), os funcionários sempre "suuuper" gente boas, típicos de um colégio católico-carola (como diretora Irmã Carmem de um metro e meio com voz nordestina que lembra o Mestre Yoda, o Hamilton, inspetor que lembra o Maguila, ente outras figuras inerraráveis) e aquele bom humor que só a obrigação estudantil pode dar, temos os lados bons da vida!
Minha maioridade - aleluia, amém - está finalmente chegando, meus pais – aleluia, amém – estão finalmente indo embora, viajando durante quase um mês para o outro lado do nosso continente, e um período de Pax Caseira se aproxima entre muita animação e perigosas liberdades...
É amigos, nem só de pão vive o homem, também vive-se de vinho, vodca e outros destilados/fermentados que engrandecem e alegram nossa vida!
E enquanto voltamos às aulas, destilamos a alegria de poder aproveitar um início de bimestre regado a liberdades individuais garantidas, fermentadas por um comprometimento duvidoso com as diretrizes paternas previamente deixadas em solo tupiniquim.
E que venha agosto!
PS: Não podendo de deixar registrado aqui, os meus parabéns pra um amigo, um irmão meu que hoje atinge a maiorida – aleluia, amém – há exatamente uma semana antes que eu! Boa sorte Luluka, vamos precisar dela. E viva a Soninha!
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Veja bem, meu bem
Mais um dia ensolarado no esquizofrênico inverno carioca.
Cá estou eu já na reta final de minhas férias em casa, ouvindo repetidamente a voz de Maria Rita interpretando os versos de Marcelo Camelo...
Apesar disso, não tem melancolia, não tem tristeza, não tem nem mesmo saudade.
Sinto-me leve, tomei há pouco tempo atrás um bom banho, a preguiça me impede de colocar uma roupa e ainda me encontro de roupão andando pela casa vazia, ainda com os versos de Camelo na cabeça, vendo a débil luz do dúbio inverno do Rio atravessar a janela da minha sala, com aquele tom opaco- translúcido iluminando os móveis quase todos de madeira escura apesar do piso e das paredes brancas.
Minto, há alguma coisa sim. Como que por um momento suspenso no ar uma expectativa paciente de algo que simplesmente não se espera. Não sei se estou conseguindo transmitir o que sinto agora, é um sentimento puramente banal, sem importância alguma, totalmente comum, mas que me é tão comum que senti sim, a necessidade de escrever embalado pela voz...
"Amor veja bem,
arranjei alguém
chamado Saudade."
Cá estou eu já na reta final de minhas férias em casa, ouvindo repetidamente a voz de Maria Rita interpretando os versos de Marcelo Camelo...
Apesar disso, não tem melancolia, não tem tristeza, não tem nem mesmo saudade.
Sinto-me leve, tomei há pouco tempo atrás um bom banho, a preguiça me impede de colocar uma roupa e ainda me encontro de roupão andando pela casa vazia, ainda com os versos de Camelo na cabeça, vendo a débil luz do dúbio inverno do Rio atravessar a janela da minha sala, com aquele tom opaco- translúcido iluminando os móveis quase todos de madeira escura apesar do piso e das paredes brancas.
Minto, há alguma coisa sim. Como que por um momento suspenso no ar uma expectativa paciente de algo que simplesmente não se espera. Não sei se estou conseguindo transmitir o que sinto agora, é um sentimento puramente banal, sem importância alguma, totalmente comum, mas que me é tão comum que senti sim, a necessidade de escrever embalado pela voz...
"Amor veja bem,
arranjei alguém
chamado Saudade."
Ultimatum!
Ultimatum ao ócio improdutivo!
São tempos de mudanças, onde os pensamentos (in)apropriados que escreverei pretendem dar enfim uma função ao ócio. Hoje, como primeira postagem coloco a segunda parte de um dos poemas mais magníficos, verdadeiros e sãos que já lí, feito no período entre guerras pelo pseudônimo de Fernando Pessoa*, cujo título também é Ultimatum.
Fora! Fora! Fora!
E se houver outros que faltem, procurem-nos por aí pra um canto!
Tirem isso tudo da minha frente!
Fora com isso tudo! Fora!
Ai! que fazes tu na celebridade, Guilherme-Segundo da Alemanha, canhoto maneta
do braço esquerdo, Bismarck sem tampa a estorvar o lume?!
Quem és tu, tu da juba socialista, David-Lloyd-George, bobo de barrete frígio feito
de Union Jacks?!
E tu, Venizelos, fatia de Péricles com manteiga, caída no chão de manteiga para
baixo?
E tu, qualquer outro, todos os outros, açorda Briand-Dato. Boselli da incompetência
ante os factos todos os estadistas pão-de-guerra que datam de muito antes da
guerra! Todos! todos! todos! Lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem
intelectual!
E todos os chefes de estado, incompetentes ao léu, barris de lixo virados para
baixo à porta da Insuficiência da Época!
Tirem isso tudo da minha frente!
Arranjem feixes de palha e ponham-nos a fingir gente que seja outra!
Tudo daqui para fora! Tudo daqui para fora!
Ultimatum a eles todos, e a todos os outros que sejam como eles todos!
(...)
Desfile das nações para o meu Desprezo!
Tu, ambição italiana, cão de colo chamado César!
Tu, «esforço francês», galo depenado com a pele pintada de penas! (Não lhe dêem
muita corda senão parte-se!)
Tu, organização britânica, com Kitchener no fundo do mar mesmo desde o princípio
da guerra!
Tu, cultura alemã, Esparta podre com azeite de cristismo e vinagre de
nietzschização, colmeia de lata, transbordamento imperialóide de servilismo
engatado!
Tu, Áustria-súbdita, mistura de sub-raças, batente de porta tipo K!
Tu, Von Bélgica, heróica à força, limpa a mão à parede que foste!
Tu, escravatura russa, Europa de malaios, libertação de mola desoprimida porque
se partiu!
Tu, “imperialismo” espanhol, salero em política, com toureiros de sambenito nas
almas ao voltar da esquina e qualidades guerreiras enterradas em Marrocos!
Tu, Estados Unidos da América, síntese-bastardia da baixa-Europa, alho da açorda
transatlântica nasal do modernismo inestético!
E tu, Portugal-centavos, resto da Monarquia a apodrecer República, extremaunção-enxovalho da Desgraça, colaboração artificial na guerra com vergonhas
naturais em África!
E tu, Brasil, “república irmã”, blague de Pedro-Álvares-Cabral, que nem te queria
descobrir!
Ponham-me um pano por cima de tudo isso!
Fechem-me isso à chave e deitem a chave fora!
Onde estão os antigos, as forças, os homens, os guias, os guardas?
Vão aos cemitérios, que hoje são só nomes nas lápides!
Agora a filosofia é o ter morrido Fouillée!
Agora a arte é o ter ficado Rodin!
Agora a literatura é Barrès significar!
Agora a política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência!
(...)
Agora é a guerra, jogo do empurra do lado de cá e jogo de porta do lado de lá!
Sufoco de ter só isto à minha volta!
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas!
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo!
*Álvaro de Campos
São tempos de mudanças, onde os pensamentos (in)apropriados que escreverei pretendem dar enfim uma função ao ócio. Hoje, como primeira postagem coloco a segunda parte de um dos poemas mais magníficos, verdadeiros e sãos que já lí, feito no período entre guerras pelo pseudônimo de Fernando Pessoa*, cujo título também é Ultimatum.
Fora! Fora! Fora!
E se houver outros que faltem, procurem-nos por aí pra um canto!
Tirem isso tudo da minha frente!
Fora com isso tudo! Fora!
Ai! que fazes tu na celebridade, Guilherme-Segundo da Alemanha, canhoto maneta
do braço esquerdo, Bismarck sem tampa a estorvar o lume?!
Quem és tu, tu da juba socialista, David-Lloyd-George, bobo de barrete frígio feito
de Union Jacks?!
E tu, Venizelos, fatia de Péricles com manteiga, caída no chão de manteiga para
baixo?
E tu, qualquer outro, todos os outros, açorda Briand-Dato. Boselli da incompetência
ante os factos todos os estadistas pão-de-guerra que datam de muito antes da
guerra! Todos! todos! todos! Lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem
intelectual!
E todos os chefes de estado, incompetentes ao léu, barris de lixo virados para
baixo à porta da Insuficiência da Época!
Tirem isso tudo da minha frente!
Arranjem feixes de palha e ponham-nos a fingir gente que seja outra!
Tudo daqui para fora! Tudo daqui para fora!
Ultimatum a eles todos, e a todos os outros que sejam como eles todos!
(...)
Desfile das nações para o meu Desprezo!
Tu, ambição italiana, cão de colo chamado César!
Tu, «esforço francês», galo depenado com a pele pintada de penas! (Não lhe dêem
muita corda senão parte-se!)
Tu, organização britânica, com Kitchener no fundo do mar mesmo desde o princípio
da guerra!
Tu, cultura alemã, Esparta podre com azeite de cristismo e vinagre de
nietzschização, colmeia de lata, transbordamento imperialóide de servilismo
engatado!
Tu, Áustria-súbdita, mistura de sub-raças, batente de porta tipo K!
Tu, Von Bélgica, heróica à força, limpa a mão à parede que foste!
Tu, escravatura russa, Europa de malaios, libertação de mola desoprimida porque
se partiu!
Tu, “imperialismo” espanhol, salero em política, com toureiros de sambenito nas
almas ao voltar da esquina e qualidades guerreiras enterradas em Marrocos!
Tu, Estados Unidos da América, síntese-bastardia da baixa-Europa, alho da açorda
transatlântica nasal do modernismo inestético!
E tu, Portugal-centavos, resto da Monarquia a apodrecer República, extremaunção-enxovalho da Desgraça, colaboração artificial na guerra com vergonhas
naturais em África!
E tu, Brasil, “república irmã”, blague de Pedro-Álvares-Cabral, que nem te queria
descobrir!
Ponham-me um pano por cima de tudo isso!
Fechem-me isso à chave e deitem a chave fora!
Onde estão os antigos, as forças, os homens, os guias, os guardas?
Vão aos cemitérios, que hoje são só nomes nas lápides!
Agora a filosofia é o ter morrido Fouillée!
Agora a arte é o ter ficado Rodin!
Agora a literatura é Barrès significar!
Agora a política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência!
(...)
Agora é a guerra, jogo do empurra do lado de cá e jogo de porta do lado de lá!
Sufoco de ter só isto à minha volta!
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas!
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo!
*Álvaro de Campos
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