quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A soma dos consensos

Escrever é algo definitivamente egoísta.
Em romances de ficção pelo menos há um consolo, aquelas personagens são irreais, produtos da imaginação do autor que no final podem ficar retidas na nossa própria imaginação.

O foda mesmo é quando o livro não é uma ficção. Acabei de ler agora o livro Paula, de Isabel Allende.
Já tinha lido outros livros da autora, que nos últimos tempos tornou-se uma das minhas preferidas, mas esse livro é diferente.
Paula era a filha de Isabel Allende que aos 27 anos teve um ataque de porfiria e morreu no ano seguinte, estando nesse meio tempo estática, em coma.
O livro foi sendo escrito pela autora para que quando Paula acordasse pudesse ler e lembrar da história de sua família, de seus pais e de seu país

Paula não acorda, mas com certeza eu despertei para um fascínio incrível por essa mulher fantástica, essa Isabel Allende e sua família de vivências extraordinárias.
O livro acabou. E com ele acabou a vida de Paula.
Sem dúvida, extremamente emocionante, com passagens tão repletas de sentimento e de emoções reais que não era difícil me pegar embargado.

Ao longo das páginas fui ficando intimo de Isabel, amigo de Tata, admirador de Tio Ramon, e com uma ligação surpreendente com tantas outras personagens. Vejo que outro livro dela A Casa dos Espíritos foi baseado na história de sua avó, e já me vejo ávido por lê-lo inteiro.

É engraçado isso. Talvez isso esteja acontecendo pelo meu distanciamento das pessoas, pelas poucas relações de afeto que venho tendo. Distancio-me da realidade e das relações para me envolver com personagens que – ainda que reais - só me são palpáveis por mero toque no papel.
Não quero saber disso. Talvez esteja me tornando algo que nunca pude imaginar, e sobre isso depois eu escrevo algo melhor. Mas mesmo assim vou continuar nessa senda.

Por mais que possa me sentir totalmente órfão quando chego a ultima página, por mais que me sinta distante – verdadeiramente distante! – daquelas pessoas por quem se criou um vínculo unilateral, estou bem assim.
Pero que si, pero que no, prefiro a companhia de meus livros e da gigantesca biblioteca de minha casa e de minha avó (que um dia unir-se-ão como uma una biblioteca, sobre meu protetorado) do que as parcas e pobres amizades perecíveis que vejo ao meu redor.

As boas mantém-se, são etéreas.
E ainda que escrever seja algo definitivamente egoísta, a boa companhia de meus livros certamente nunca me faltará.

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