terça-feira, 9 de setembro de 2008

Emmenez-moi

Meus pais conheceram-no há 14 anos atrás, quando foram apresentados à ele como professor de francês.
Simeon é dessas pessoas que tem uma extraordinária história de vida.
Francês de Bordeaux, Simeon saiu da França deixando dois filhos e uma ex-esposa.
Assumindo sua homossexualidade, separou-se da sua mulher, deixou pra trás uma difícil relação com os filhos e veio com a roupa do corpo para o Brasil dar aulas de francês por três meses.

Esses três meses hoje somam 14 anos. Apaixonou-se pelo país e pelo Rio, mesmo com o baque da cultura, das diferenças e hábitos – muitas vezes combinados com a total falta de dinheiro.
Os estranhamentos culturais foram sendo superados, e hoje (como conversamos no jantar) são lembrados como histórias engraçadas.

Como o fato do abraço apertado (tão comum aos cariocas!) é tido na França como praticamente um convite para uma noite de sexo selvagem (!!).
E quando ele viu minha mãe abraçando-o na frente de meu pai, horrorizado exclamava “Ne me touche pás! Ne me touche pás!” enquanto meus pais riam explicando que aquilo era comum por aqui...
O fato de que durante um tempo sem dinheiro nem para um cafezinho, pediu aos meus pais um dinheiro emprestado. Sintiu-se humilhado, completamente envergonhado, uma vez que é impossível na concepção de um francês, pedir dinheiro a qualquer um, mesmo a um amigo, que é mais fácil deixar-se morrer de fome do que pedir.
“É o maldito orgulho de merda dos françaises...” – diria ele com seu sotaque...

Contando como está sua vida hoje, Simeon disse que seus filhos (antes brigados) já pensam em comprar um apartamento no Rio para passar as férias, que seus pais já pensam em visitá-lo no Brasil (antes um terra de selvagens) e que mesmo vivendo num país estranho, desconhecido (hoje admirado), assumindo suas escolhas, tudo se ajeitou, e bem-sucedido (está para inaugurar uma pousada foda em Barra de Guaratiba, um dos lugares mais bonitos do Rio) não pensa como poderia ser mais feliz.

E tirando a parte da homossexualidade, me identifico muito com a história de Simeon.
Como a escolha de sair de seu país de origem, sem rumo, andarilho e sem destino.
Com apenas uma diferença: voltar ao Brasil, porque bem ou mal, sou irremediavelmente apaixonado por isso aqui.

Imagino que Simeon possa ter sido influenciado pelas letras de Aznavour, onde ele fala exatamente isso. E das quais eu sempre me deixo levar com um sentimento único de pegar o primeiro avião que me aparecer pela frente, apesar de já estar no meio da terra.

“Emmenez-moi au bout de la terre
Emmenez-moi au pays des merveilles
Il me semble que la misère
Serait moins pénible au soleil”


[Ainda que seja mera ilusão que a miséria é menos penosa sob o Sol...]

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