sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Ponto e vírgula;

[Esse post foi revisado, devido a minha irritação com a mediocridade do texto abaixo. Obrigado.]

Engraçado como mudei. Estou tão indiferente à diferença nos últimos tempos que só agora pude constatar isso. Já não sinto mais por toda aquela situação com “amigos” perdidos, já não me sobe à cabeça aquela irritação devastadora que há algum tempo atrás derrubarias árvores, quebraria copos e auto destruiria-se num rompante de lágrimas emputecidas nos conflitos caseiros e adjacentes.
Leve. Essa é a palavra. Sinto-me tão leve, despreocupado que quase beiro a imbecilidade da indiferença total.
É um sentimento novo e muito bom, devo admitir. Não me importo tanto com as coisas, as porradarias são encaradas com uma tranqüilidade assombrante, as eventuais deturpações e ofensas que podem ser dirigidas a mim são digeridas com um curioso riso de superioridade nos lábios, que alias, não falam mais tanto quanto antes.
Mas não é uma superioridade arrogante, aquele orgulho leonino-adolescente incomensurável que já tive, é uma superioridade à essas situações tão pequenas.

Não quer dizer que tenha me tornado alguém antipático, apático. Continuo na mesma essencia da simpatia, do bom humor gratuito, daquelas situações que vc vê uma pessoa sorrindo pra vc na rua ao mero acaso, sem nada ter feito para tal. Esse continua a ser. Despreocupado. Uma simpatia despreocupada.
Talvez eu esteja me tornando definitivamente blasé, desanuviado, compenetrado em mim mesmo. O curioso é que isso será interpretado de várias formas por outrem(s).
Serei avaliado como alguém mais metido; sábio; calmo; indiferente; despreocupado; e posso continuar infinitamente com outros adjetivos relativos a isso, entre vários ponto e vírgulas.
Descobri a pouco tempo o uso do ponto e vírgula, e achei deveras interessante. E viva o parnasianismo!

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Futuro do Premérito

Manuel estava definitivamente tranqüilo.
Certas situações desagradáveis e algumas porradas que a vida dá sempre acabam acrescentando experiências, e a liberdade do descompromisso que deram à Manuel tinha deixado-o bastante satisfeito.

Ele simplesmente não se importava mais. Sabia que se comparecesse iria ser legal, tomaria umas e outras com os “velhos amigos”, exerceria a arte de ver e ser visto, e no dia seguinte sequer dariam um telefonema.
Estaria ébrio pelas bebidas caras que tomou no bar, no dia seguinte juraria que nunca mais beberia daquela forma, exatamente como jurou que não prestigiaria mais aqueles babacas, tantas e tantas vezes.

Mas uma coisa mudou e Manuel, entre pílulas de plasil, engov e novalgina (que guardava na carteira com o infame nome de kit-manguaça), já não percebera que mesmo estando lá não prestigiaria ninguém.
Ele estava lá e pronto, o apreço tinha sumido tal qual o sentido de tantos nomes empoeirados na sua agenda.

- Maneco, Maneco... – pensava ele – Você sabe que há a chance de não ir naquela pocilga dispendiosa e sequer dar qualquer satisfação no dia seguinte, e mesmo assim faz suposições do contrário no futuro do pretérito.

- Na boa? Vamos é nos esconder ou beber com os amigos com um taco de boteco na mão, que de barões escrotos eu já me enchi! – Disse ele parando de escrever qualquer coisa em seu caderno público....

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

A soma dos consensos

Escrever é algo definitivamente egoísta.
Em romances de ficção pelo menos há um consolo, aquelas personagens são irreais, produtos da imaginação do autor que no final podem ficar retidas na nossa própria imaginação.

O foda mesmo é quando o livro não é uma ficção. Acabei de ler agora o livro Paula, de Isabel Allende.
Já tinha lido outros livros da autora, que nos últimos tempos tornou-se uma das minhas preferidas, mas esse livro é diferente.
Paula era a filha de Isabel Allende que aos 27 anos teve um ataque de porfiria e morreu no ano seguinte, estando nesse meio tempo estática, em coma.
O livro foi sendo escrito pela autora para que quando Paula acordasse pudesse ler e lembrar da história de sua família, de seus pais e de seu país

Paula não acorda, mas com certeza eu despertei para um fascínio incrível por essa mulher fantástica, essa Isabel Allende e sua família de vivências extraordinárias.
O livro acabou. E com ele acabou a vida de Paula.
Sem dúvida, extremamente emocionante, com passagens tão repletas de sentimento e de emoções reais que não era difícil me pegar embargado.

Ao longo das páginas fui ficando intimo de Isabel, amigo de Tata, admirador de Tio Ramon, e com uma ligação surpreendente com tantas outras personagens. Vejo que outro livro dela A Casa dos Espíritos foi baseado na história de sua avó, e já me vejo ávido por lê-lo inteiro.

É engraçado isso. Talvez isso esteja acontecendo pelo meu distanciamento das pessoas, pelas poucas relações de afeto que venho tendo. Distancio-me da realidade e das relações para me envolver com personagens que – ainda que reais - só me são palpáveis por mero toque no papel.
Não quero saber disso. Talvez esteja me tornando algo que nunca pude imaginar, e sobre isso depois eu escrevo algo melhor. Mas mesmo assim vou continuar nessa senda.

Por mais que possa me sentir totalmente órfão quando chego a ultima página, por mais que me sinta distante – verdadeiramente distante! – daquelas pessoas por quem se criou um vínculo unilateral, estou bem assim.
Pero que si, pero que no, prefiro a companhia de meus livros e da gigantesca biblioteca de minha casa e de minha avó (que um dia unir-se-ão como uma una biblioteca, sobre meu protetorado) do que as parcas e pobres amizades perecíveis que vejo ao meu redor.

As boas mantém-se, são etéreas.
E ainda que escrever seja algo definitivamente egoísta, a boa companhia de meus livros certamente nunca me faltará.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Emmenez-moi

Meus pais conheceram-no há 14 anos atrás, quando foram apresentados à ele como professor de francês.
Simeon é dessas pessoas que tem uma extraordinária história de vida.
Francês de Bordeaux, Simeon saiu da França deixando dois filhos e uma ex-esposa.
Assumindo sua homossexualidade, separou-se da sua mulher, deixou pra trás uma difícil relação com os filhos e veio com a roupa do corpo para o Brasil dar aulas de francês por três meses.

Esses três meses hoje somam 14 anos. Apaixonou-se pelo país e pelo Rio, mesmo com o baque da cultura, das diferenças e hábitos – muitas vezes combinados com a total falta de dinheiro.
Os estranhamentos culturais foram sendo superados, e hoje (como conversamos no jantar) são lembrados como histórias engraçadas.

Como o fato do abraço apertado (tão comum aos cariocas!) é tido na França como praticamente um convite para uma noite de sexo selvagem (!!).
E quando ele viu minha mãe abraçando-o na frente de meu pai, horrorizado exclamava “Ne me touche pás! Ne me touche pás!” enquanto meus pais riam explicando que aquilo era comum por aqui...
O fato de que durante um tempo sem dinheiro nem para um cafezinho, pediu aos meus pais um dinheiro emprestado. Sintiu-se humilhado, completamente envergonhado, uma vez que é impossível na concepção de um francês, pedir dinheiro a qualquer um, mesmo a um amigo, que é mais fácil deixar-se morrer de fome do que pedir.
“É o maldito orgulho de merda dos françaises...” – diria ele com seu sotaque...

Contando como está sua vida hoje, Simeon disse que seus filhos (antes brigados) já pensam em comprar um apartamento no Rio para passar as férias, que seus pais já pensam em visitá-lo no Brasil (antes um terra de selvagens) e que mesmo vivendo num país estranho, desconhecido (hoje admirado), assumindo suas escolhas, tudo se ajeitou, e bem-sucedido (está para inaugurar uma pousada foda em Barra de Guaratiba, um dos lugares mais bonitos do Rio) não pensa como poderia ser mais feliz.

E tirando a parte da homossexualidade, me identifico muito com a história de Simeon.
Como a escolha de sair de seu país de origem, sem rumo, andarilho e sem destino.
Com apenas uma diferença: voltar ao Brasil, porque bem ou mal, sou irremediavelmente apaixonado por isso aqui.

Imagino que Simeon possa ter sido influenciado pelas letras de Aznavour, onde ele fala exatamente isso. E das quais eu sempre me deixo levar com um sentimento único de pegar o primeiro avião que me aparecer pela frente, apesar de já estar no meio da terra.

“Emmenez-moi au bout de la terre
Emmenez-moi au pays des merveilles
Il me semble que la misère
Serait moins pénible au soleil”


[Ainda que seja mera ilusão que a miséria é menos penosa sob o Sol...]

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Previsão do Tempo

Um calor infernal; um chá feito péssimamente mal; uma merda de uma luz fraca que deixa o ambiente em uma penumbra irritante.
Esses são alguns fatores que contribuem para meu atual estado de espírito.
Engraçado pensar que ontem mesmo minha cabeça era outra. Por mais que tenha estado consciente do cu de vida que venho levando, a empolgação com esse Blog semi-moribundo (sei que quase ninguém lê isso aqui...) e cativantes idéias de escrever sobre minha atual compulsão com a leitura, tinham me animado.
Bem, a postagem sobre a leitura fica pra outro dia. Pelo menos em parte.
Escrevendo o esboço dessa postagem aqui, cheguei a conclusão que talvez eu esteja mergulhado e envolvido de maneira tão intensa com a leitura justamente para tentar me abstrair. Sorvendo página à página eu esqueço, um pouco, tudo que me ronda. E devido à escassez de amigos, de amores e de compromisso, a leitura é o que me resta.

Me impressiona a habilidade que eu tenho de buscar a felicidade. Eu vivo atrás dela incansavelmente. Mesmo no fundo do poço, mesmo tendo me fodido de verde e amarelo eu ainda busco-a no mais inacreditável otimismo que as circunstâncias podem permitir.
Não quer dizer que não tenha meus momentos de infelicidade, tenho sim. Mas costumo logo a recuperar-me, ainda que os versos de Vinícius custem a sair da cabeça dizendo,

“Tristeza não tem fim, felicidade sim.”


Pode-se resumir meus momentos atuais em ápices, síncopes bipolares de humor. Alterno entre o mais profundo otimismo – ainda que nadando envolto por excrementos – e a maior sensação de impotência.
Quem dera eu que um milagroso remedinho azul resolvesse-a. Alias, disposição quanto à esse tipo de impotência não me falta, visto que minha vida amorosa (se é que ainda tenho uma) está um lixo e consequentemente “energia” para a tal coisas é o que sobra.
Impotência no sentido de estar com as mãos atadas, de ter atingido o ponto de usar clichês baratos como “cheguei ao fundo do poço”, como vocês podem constatar acima.
Uma das poucas coisas que me resta - além da leitura e desse blog - são ótimas conversas, desabafos e identificações que venho tendo inesperadamente com uma desconhecida (que se torna cada vez mais conhecida) que mora em outro estado e que sempre dispõem de uma sanidade e estado de espírito cativantes.

Nesse ínterim, minha criatividade e inspiração (ou a falta dela) estão acabando junto com o chá forte e amargo que está esfriando na xícara à minha frente.

Alguns acreditam na arte de ler a Sorte na borra de chá que fica como resquício na xícara.
Sou um analfabeto nessas leituras, mas se pudesse conjurar dos livros de Isabel Allende sua avó vidente, a Memé, acho que ela me olharia e diria para retomar as rédeas da minha vida novamente.

E sabemos que Memé não erra, não é Isabel?

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Debutando com a Sinceridade

Fico me perguntando, "cadê aquele cara cheio de amigos, cheio de histórias engraçadas pra contar"?
As histórias ainda estão aqui, quando eu quero e convém eu as conto, até mesmo dou risadas e me divirto com as lembranças. Mas muitas das personagens que estavam nelas nem mais de amigos posso chamar. Hoje são como retratos em sépia. Nada além de lembranças amareladas - resquícios de um passado não tão distante - que um dia protagonizaram alguns momentos.

Sei que hoje eles ainda lembram de mim. Sei que guardam boas lembranças (até mesmo por manter contato ínfimo com alguns deles), tenho até mesmo a noção que sou lembrado entre eles como uma “figurassa”, daqueles que contam e recontam as minhas antigas histórias mais “famosas”.
Mas é isso. É isso?
Minha amizade, meu prestígio, onde estão? Sem dúvidas, é bom saber que se é lembrado dessa forma, mas preferiria mil vezes ter ainda meu prestígio, a proximidade e poder chamá-los de amigos.

Não tem ressentimento nessas palavras, só há um sincero desabafo.
Não faço mais questão de tê-los na estima que tinha antes. As coisas mudam, o tempo passa e eu passei. Mais tarde, quando uns decaírem, alguns manterão o status quo e outros até mesmo ascenderão, e talvez todos se esqueçamos da maior parte das lembranças.

Mas não vou me arrepender disso. Tentei e não houve retorno, paramos por aí.
Posso dizer que me sinto um peixe fora d’água, que não pertenço mais a nada, não tenho mais identificação com coisa alguma.
E que nessa liberdade solitária, novas possibilidades se abrem, não menos penosas e com aparentes péssimas perspectivas – devo admitir.

Preciso encontrar novos amigos. Botem placas, outdoors e panfletos!
Pois à ambigüidade, o cinismo e o laissez-faire das Altas Rodas, prefiro a solidez de algo despretensioso, que em detrimento de glamurosas "amizades" de sobrenomes conhecidos, ainda pode-se dizer que possuo a certeza da rara e preciosa consideração dos que ainda considero.